Deméter e os mistérios femininos do sangue


Um livro que tem me inspirado é “A Deusa Interior”, de Jennifer B. Woogler e Roger J. Woogler. No livro, eles falam lindamente sobre 6 deusas do panteão Greco-romano, destacando processos históricos e seus desdobramentos do ponto de visto antropológico, sociológico e psicológico, relacionando os mitos e os arquétipos ligados a essas deusas (desdobradas da Grande-Mãe), cada uma regendo um aspecto do mundo feminino.

Atena – deusa da sabedoria e da civilização
Artemis – deusa das selvas e da natureza
Hera – rainha dos deuses, esposa de Zeus
Afrodite – deusa da beleza e do amor
Pérsofone – deusa da vida e da morte, senhora do mundo avernal
Deméter – deusa da fertilidade e dos ciclos da natureza

E é Deméter, o arquétipo da maternidade, que nos inspira também a refletir um pouco mais sobre nossos ciclos. Deméter é tratada sempre com relação a Coré, sua filha (também identificada com a deusa Perséfone), a qual fora raptada por Hades e levada ao inferno, onde deve ficar durante um terço do ano (período de escassez sobre a terra), gerando desespero e dor em sua mãe.

Os cultos a Deméter e Coré eram muito expressivos na Grécia, e eram realizados de forma misteriosa na cidadezinha de Elêusis (os mistérios de Elêusis), revelando, como dizem os autores, “uma concepção da maternidade e do ciclo feminino ao mesmo tempo espiritual e fundamentada no corpo (integradora), capaz de alimentar, nutrir e inspirar as mulheres”.

Vou transcrever alguns trechinhos do livro, que me tocaram muito. (Os destaques em negrito são meus). Pra gente se tocar...

“Embora Deméter não seja a rigor uma Deusa Mãe – esse título pertence à sua avó, Gaia ou Ge, cujo nome significa ‘terra’ - , o seu mito e culto dizem respeito ao que acontece em cima e embaixo da terra. Ela e a filha simbolizam os ciclos dinâmicos da natureza que ocorrem no interior do corpo da terra e, em decorrência do princípio místico da correspondência, também no interior do corpo de toda mulher.

[...]

O nome Coré significa donzela em grego. No mito, Coré é raptada e desposada por Hades, senhor dos infernos, que a inicia nos mistérios da sexualidade.

“No entanto, algo ocorre antes da perda da virgindade, algo pelo qual praticamente todos os comentadores da história de Deméter passaram em silêncio, algo que irá modificar a consciência que a jovem tem de si mesma de maneira mais profunda do que qualquer homem seria capaz: ela começa a menstruar.

É claro que esse fato não é explicitado assim nos hinos Homéricos ou em qualquer outra parte; a maioria dos mistérios que se referem aos órgão genitais são removidos ou expressos simbolicamente. Porém, dizer que Coré tornou-se ciente da terra abrindo-se debaixo de si é na realidade dizer que profundos movimentos começaram a ocorrer no interior de seu próprio corpo. A função de Hades é, portanto, arrastá-la para baixo a uma nova consciência dos movimentos internos de seu corpo enquanto mulher, enquanto vínculo de criação. O grande ciclo da vida e da morte, que até então pertencera vagamente ao mundo exterior [estações, ciclos agrícolas etc], agora proclama-se dramaticamente dentro de seu útero sob a forma de seu primeiro sangramento.”

“Infelizmente, para a maioria das mulheres, o rico manancial de significados femininos que flui com a primeira menstruação é deixado sem qualquer explicação, destituído de qualquer benção, e permitido submergir confusamente de novo ao inconsciente. O que deveria ter sido a primeira grande iniciação nos mistérios atemporais da maternidade – uma identificação mística com o corpo da Grande-Mãe que é vida, morte, terra e cosmos – torna-se ao invés um momento de vergonha e alienação de si mesma.”

“Concordando com Jung e com muitos autores que ele inspirou, nós também achamos que a maioria das perturbações menstruais e ginecológicas podem ser, em última análise, atribuídas a atitudes profundamente negativas com que tantas mulheres aprenderam a considerar os seus corpos em geral e a função menstrual em particular – o que resumidamente poderíamos chamar de um denegrir dos mistérios femininos do sangue.”

Sigamos, acompanhando o retorno da Deusa em nós e buscando a re-ligação com a Vida em nós mesmas.

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