Lua e Sangue

Uma dessas fragmentações tem me chamado atenção, especialmente. É algo que nos distancia da natureza, e assim de nós mesmas, que somos natureza. Tem a ver com nossos ciclos, com os ciclos da Vida. Todas nós estamos ligadas através da nossa Grande Mãe, a Deusa de vários nomes, tão violentada em nossa era patriarcal, tantas vezes queimada na fogueira, ridicularizada, explorada, violada, humilhada. Assim, nós também sofremos essa violência, às vezes de formas tão sutis, que nem nos damos conta: achamos natural. Achamos natural usar sutiã, tomar anticoncepcional, usar absorventes com produtos tóxicos, trabalhar com cólica, e agradecemos por termos a licença maternidade ampliada pra 6 meses.

São reflexos da separação que temos sofrido (e empreendido também, porque não somos passivas nessa história). Criaram até uma sigla (TPM) pra patologizar um período que antes era sagrado pra nós. Andamos bem desconectadas da Grande Mãe ultimamente. Nossa Mãe Lua, poderosa, que regula marés, que regula nossos fluxos. E assim, nossos ciclos andam descompassados, não minguamos mais com ela, não renovamos mais nosso sangue quando ela também se re-nova. Será porque nossos telhados são espessos demais, impedindo que seu brilho banhe nosso sono e oriente nossos sonhos? Será porque deixamos de celebrá-la, como a nós mesmas, com os rituais femininos?

O certo é que quando nos afastamos dela, nos afastamos de nós mesmas, em toda a nossa corporeidade. Descuidamos do ritmo feminino, negamo-o. Seguimos o tempo todo aceleradas, no tempo da produtividade do capitalismo. Isso tem me inquietado muito, e os presentes tem despertado em mim uma outra visão sobre nosso sangue, sobre nossos ciclos, sobre mim mesma...

Assim, quero compartilhar com vocês um mistério que me foi revelado. Digo mistério porque teve essa força para mim. É um trechinho do livro “A Tenda Vermelha” (ver Inspirações ao lado), quando a mãe de Dinah, então prestes a sair da infância, vai explicar para ela os segredos da menstruação (é preciso dizer que a história se passa no Oriente Próximo, séculos antes do nascimento de Cristo, numa aldeia onde todas as mulheres menstruavam juntas durante o período da lua nova, quando se recolhiam à tenda vermelha). A mãe de Dinah segreda a ela:

"- A grande mãe a quem chamamos Innana concedeu às mulheres uma dádiva que os homens desconhecem, que é o segredo do sangue. O fluxo na escuridão da lua, o sangue benéfico do nascimento da lua, para os homens, é vazamento e incômodo, aborrecimento e dor. Eles acham que sofremos e consideram-se afortunados. Na tenda vermelha sabemos qual é a verdade. Na tenda vermelha, onde os dias passam como as águas de um riacho tranquilo enquanto a dádiva de Inana passa através de nós, limpando o corpo da morte do mês anterior, preparando o corpo para receber a vida do novo mês, na tenda vermelha, as mulheres dão graças: pelo repouso e pela recuperação, por saber que a vida vem dentro de nós, surge entre as nossas pernas, e que a vida custa sangue. (...) Infelizmente muitas das filhas dela esqueceram o segredo da dádiva de Inana e deram as costas a tenda vermelha."

Fica ainda em mim a inquietação, a vontade de mudar o rumo dessa história. Na direção de mais integração, da conexão, de re-ligação com a Lua, com a Natureza, nossa Grande-Mãe.

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